Casório é o tipo de festa mais mais que existe.
Ninguém além dos amigos (aqueles que vc conhece e os que não, mas que com certeza são interessantes - os seus amigos que casam só conhecem gentes boas), todo mundo arrumado, bonito e cheiroso, ótima música.
No sábado passado, casaram-se Fabim e Sil. Ela é a estilista que a gente precisa na cidade, ele o novo coordenador da Escola de Audiovisual da Fustaleza. Mas isso pra nós: pra eles, eles são o reencontro de 12 anos, de uma vontade inexplicável de compartilhar, de construir uma casa, de fazer planos e construir o passado (como ele disse na cerimônia, nós vivemos de passado).
E por falar em cerimônia, o casamento dos amigos têm cada vez se tornado mais legal. Seja o tiro que sai pela culatra do padre careta e preconceituoso - que potencializou, pelo discurso sujo, a vontade já consistente dos convidados de viver a vida da forma mais bonita e plural possível (como no casamento da Kerla e do Bob, que eu não fui, mas ouvi a história 500 vezes). Seja pelo convite aos amigos em dizer umas palavras (como foi com o Ale e a Mimi, que eu fui! E adorei o poema que o Marcão recitou, que é do Carlitos, que hj lança livro lá no Alpendre - e tem que ir, pq é também despedida do Alpe. Mas isso é outro post).
Seja no casório da Sil e do Fabim: quando o próprio noivo - como ele mesmo disse, assumindo todos os clichês da situação - resolveu dizer umas palavras. E foi lindo, porque o caba fala bem pra carai. E foi bonito também quando ele recitou um poema adaptado dos mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. Ele disse que os originais estão no livro “A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani”, de Pierre Clastres. Depois do beijo eu joguei o arroz, mesmo sem saber se era a hora.
E num é que não era? Ainda tinha as alianças. Depois do chorinho e da insistência da Dani e da Ethel em balançar o corpo, a gente se acabou na pista com o Guga tocando e o link pras fotos é do post daí de baixo.
Como o Fabim é ótemo de todo jeito, ele mandou o poema pro email da moçada (o título é “Bênção aos belamente adornados”). Aí vai:
Estes que belamente são adornados
Esta que belamente é adornada
Eis que à vista de sua alegria
Alguém apresta-se sobre nossa terra
Para que envie então uma Bela Palavra-habitante.
Que seja grande a sua força na morada terrestre;
E mesmo se as coisas em sua totalidade,
Todas desprovidas de semelhança, erguerem-se, assombradas,
Que seja grande o seu coração!
Ninguém melhor que ti saberá
Sacudir para longe de si as coisas más.
Farei, quanto a mim,
Correr no topo de sua cabeça
O fluxo das Belas Palavras,
A fim de que, igual a você, não exista ninguém
Na morada terrestre das coisas imperfeitas.
Que em um tempo não distante se faça ouvir sobre a terra
A bela grandeza do coração:
Em favor de todos aqueles que estão longe de nosso olhar;
Em favor dos poucos numerosos adornados que ainda moram;
Em favor deles todos, que graças ao saber das coisas
Seja potente a chama, seja potente a bruma.
E que produzam belamente aqueles que sabem,
aqueles que estão à espera,
Todos eles, todos.
No coração de seu firmamento iluminado de raios silenciosos,
O Tempo, excelente, se ergue.
Não é aos seres doentes de vida imperfeita
Que é destinada a nostalgia dessas coisas;
Apesar disso, eis-me aqui, tenso em um esforço sem medidas
De meu canto, De minha dança.
Ensine-me, diga-me
De qual fonte, de qual fonte,
De qual saber das coisas,
Houve algum dia pronta proveniência de grandeza de coração.
Pois, seguramente, meu desejo de saber as coisas
Me esgota: danço, danço
E danço ainda.
É assim.
Os belos sinais que você deixou,
Meu desejo é conhecê-los!